Não estamos preparados para ver quem amamos envelhecendo, é como se a pessoa fosse se apagando com as marcas do tempo

Como é dolorido enxergar a pessoa que mais amo nesse mundo ficando cada dia mais fraca e debilitada, também pudera né, minha avó tem 95 anos e estou sendo egoísta de querê-la eternamente com a vitalidade de uma garota de 18 anos. Eu reconheço isso racionalmente.

Mas a emoção toma conta quando me lembro dela correndo atrás de mim no quintal insistindo para eu comer tudo no prato, quando ela me enchia de vitaminas e dizia que eu era “magrela” demais. Sinto saudades do ânimo dela até para brigar comigo, a primeira vez que isso aconteceu, e de fato, ela me bateu quando descobriu que perdi a virgindade e estava fazendo sexo. Fim dos tempos e de uma era pra ela, porque as meninas deveriam se casar virgens, assim como ela em mil novecentos e bolinha.

A vitalidade, o entusiasmo dela era invejável e nunca imaginei vê-la em cima de uma cama sem ter forças para andar, ir ao supermercado, pagar contas. Fazer aquele macarrão e frango que só ela sabia fazer, devido ao amor que atribuía a tal função. O mais saboroso Sazón, o amor, a dedicação diária que ela desempenhava em cozinhar todos os dias para gente. Ela gostava de montar banquetes e partilhar com os mais próximos, insistia e ficava zangada se você não comesse a comida dela.

Atualmente não enxergo mais o brilho nos seus olhos, a garra de viver, a memória está ficando cada dia menor e distante, assim como a fala baixa e o corpo franzino exibindo as marcas do tempo. Sinto que já não posso contar com seus conselhos sábios quando ela conversava comigo, sinto que já não posso mais contar com a sua proteção, ela me protegia todas as noites antes de dormir, rezava para mim aos pés da cama e dizia que eu precisava acreditar em Deus. Sinto que há um desprendimento corporal nela já diluindo e que eu não tenho condições de impedir mais nada, isso me dói e me sinto impotente.

A ingratidão do tempo é devido ao tempo que já não temos mais, não somos mais jovens, não temos todo tempo do mundo e não podemos impedi-lo de seguir. Infelizmente, ah como eu lamento por isso.

O tempo segue, a vida acontece e um dia já não existiremos mais por aqui, nosso corpo vai se perdendo ao longo da existência. Porém não estamos prontos para perder quem amamos, nunca. É difícil compreender o ciclo da vida e os imprevistos que acontecem. Tememos “aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre”, essa frase é de Ariano Suassuna, que morreu aos 87 anos, vítima de uma parada cardíaca mediante a um AVC.

Fran Bueno