A bioeconomia, tão em voga para um mundo mais sustentável, requer conhecimento e ampla discussão sobre o uso de biorrecursos e biotecnologia, de forma a reverter o investimento em lucro na indústria. Com esse intuito, a Firjan apresentou a palestra “O que é Bioeconomia? Como afeta a competitividade da indústria? – Desafios na Indústria em Bioeconomia”, por Antônio Fidalgo, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Instituto SENAI de Inovação (ISI) Química Verde.

A atividade integrou a 13ª Reunião Anual de Avaliação de Resultados do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) – Bioeconomia: Desafios e Tendências na Indústria Brasileira. Realizado em 19/2, na Casa Firjan, o evento é promovido pelo INT, instituto vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

A bioeconomia é um modelo de produção industrial baseado no uso de recursos biológicos. O objetivo é oferecer soluções para a sustentabilidade dos sistemas de produção com vistas à substituição de recursos fósseis e não renováveis. A preocupação se deve ao aumento da escassez dos recursos naturais, limitados e finitos, em que se estima ser necessário um aumento de 70% da oferta mundial de alimentos para suprir as necessidades da população global de 9 bilhões até 2050.

“A ciência de materiais possui oportunidades no desenvolvimento de novas opções a partir de biomassa renovável. As demandas levam em consideração o desenvolvimento sustentável e da proteção ambiental. A bioeconomia inclui a produção primária – como agricultura, silvicultura, pesca e aquicultura – e indústrias que usam/processam recursos biológicos, como as de alimentos, papel e celulose, e partes das indústrias química, biotecnológica e energética”, exemplifica Fidalgo.

Uma crescente população global precisará de suprimento seguro e protegido de alimentos. Porém, as mudanças climáticas terão um impacto nos sistemas de produção primária. “É necessária uma transição para um uso ideal dos recursos biológicos renováveis. Devemos avançar para sistemas sustentáveis de produção e processamento primário que possam desenvolver mais alimentos, fibras e outros itens de base biológica com menos insumos, menos impacto ambiental e emissões reduzidas de gases de efeito estufa”, pontua o coordenador do ISI.

Para ele, a bioeconomia exige uma recuperação valiosa de recursos e produtos pela valorização de resíduos, o que requer habilidades extensivas de engenharia de processos. Por isso, os desafios exigem uma ampla colaboração entre vários atores, como indústria, institutos de pesquisa e universidades. “Isso é crucial para o crescimento de fortes centros de pesquisa e inovação, acelerando o desenvolvimento, a verificação e a comercialização de novas soluções, fornecendo suporte contínuo à demonstração de produtos, sistemas e serviços”, explica.

Fidalgo ressalta que, à medida que novas tecnologias baseadas em matérias-primas renováveis e princípios biológicos se tornam disponíveis, a transformação bioeconômica pode ajudar a alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. “O empresário deve estar alinhado com as demandas socioambientais globais. Para projetar estruturas eficazes de governança habilitadora e regulatória para a transformação de biomassa, os formuladores de políticas estão sempre identificando tecnologias futuras potencialmente revolucionárias e avaliando ganhos e riscos associados à sustentabilidade”, destaca.

O coordenador do ISI acrescenta que a bioeconomia não pode ser consolidada até que os materiais e produtos desenvolvidos sejam aceitos e vendidos no mercado. “Os bens e produtos introduzidos devem ser tão bons quanto ou até mais atraentes do que aqueles que se pretende substituir. O desafio aqui, além de oferecer produtos atraentes e competitivos, é também conscientizar o consumidor, influenciando os hábitos de consumo”, incita o especialista.

Números expressivos

Segundo Fidalgo, a bioeconomia deu uma contribuição substancial ao crescimento socioeconômico global, como no caso do Reino Unido, onde foram injetados mais de 200 bilhões de libras em valor bruto na economia britânica, que geraram 5 milhões de empregos até 2014.

Outro indicativo desse crescimento socioeconômico pode ser visto na análise dos dados do Eurostat: o volume total de negócios relativos à bioeconomia, incluindo alimentos e bebidas e setores primários, movimentou 2,3 trilhões de euros em 2016. Aproximadamente metade desse montante refere-se ao setor de alimentos e bebidas e quase um quarto aos setores primários de agricultura e silvicultura. O restante (cerca de 25%) é gerado pelas chamadas indústrias de base biológica, como produtos químicos e plásticos, farmacêuticos, papel, indústrias de base florestal, têxtil, biocombustíveis e bioenergia.

Em 2016, a bioeconomia empregou 18,6 milhões de pessoas no total. A produção primária de biomassa, principalmente agricultura, silvicultura e pesca, gera 55% das oportunidades. Em 2016, as indústrias de base biológica faturaram cerca de 700 bilhões de euros, gerando 3,6 milhões de pessoas empregadas na União Europeia. Somente na indústria química de base biológica, o faturamento foi de aproximadamente 38 bilhões de euros naquele ano.

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