No último dia 10, A BBC Brasil publicou uma matéria sobre uma campanha feitapela Prefeitura Municipal de São Leopoldo, uma cidade de 230 mil habitantes no Rio Grande do Sul, que consistia em expor a imagem de várias mulheres, maquiadas como se estivessem sido agredidas ou até mortas, com placas ou cartazes que traziam frases retiradas de músicas populares brasileiras[i]:“Se te agarro com outro, te mato”, de Sidney Magal; “Só surubinha de leve com essas filhas da puta / Taca bebida, depois taca a pica e abandona na rua“, de MC Diguinho; “Com tanta roupa suja em casa, você vive atrás de mim / Mulher foi feita para o tanque/ Homem para o botequim” – Grupo Vou Pro Sereno, entre outras.Não demorou muito e a matéria com as imagens viralizou nas redes sociais.

Mesmo com todas as conquistas e garantias de direitos, e tendo uma legislação específica que foi considerada pela ONU uma das três leis mais avançadas do mundo, como é o caso da Lei Maria da Penha (Lei 11.350/2006), parece que ainda falta um grande caminho pela frente. Ou, nas palavras de Millôr Fernandes: “um enorme passado pela frente”. Não há muito o que comemorar no dia 08/03. De acordo com o Mapa da Violência de 2015[ii], a taxa de feminicídio[iii] no Brasil é a quinta maior do mundo. Naquele ano o Ligue 180 registrou 179 casos de agressão por dia e os números não reduzem.

Mas de onde vem tudo isso?

A violência contra a mulher não é um fato isolado, praticado por alguém descontrolado e doente. Por essa razão, o esforço para compreender o(a) agressor(a) não pode se limitar a análise do indivíduo. A questão é mais densa e mais profunda. Trata-se de uma construção coletiva, entranhada no tecido social e que orienta condutas. Aparece no indivíduo, mas é algo que silenciosamente, ou não, define o modo como homens e mulheres se relacionam. Fica visívelna forma de assédio, coação, ameaça,agressão física, mas também está presente no controle e na vigilância sistemáticos. Mulheres são controladas desde a infância, são cerceadas logo em suas primeiras experiências, ao passo que os meninos são estimulados a se aventurar mundo afora.

Produzimos uma cultura de violência que marca a vida de meninas e mulheres numa sociedade que se organiza a partir das desigualdades de gênero. É preciso romper com este ciclo e isso não se faz, como se vê, apenas com leis e instituições. É absolutamente necessário e urgente que façamos parte disso coletivamente, criticamente. É preciso repensar as regras que aprisionam meninas e mulheres e limitam suas vidas, seus corpos, suas vozes! É preciso repensar a família, as instituições, as regras sociais, o modo como vivemos, porque a violência perpetua-se nas práticas cotidianas, na naturalização de preconceitos. Fato é que não vamos desistir. A liberdade é um caminho sem volta!

Carolina Cunha – Advogada

Doutoranda em Ciência Política – UFF

Professora e pesquisadora do Núcleo de Violências de Gênero – UBM.