“Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico”… Nelson Rodrigues

Ah, simplesmente esse é Nelson Rodrigues, o eterno anjo pornográfico. O jornalista sensacionalista, o escritor revolucionário do teatro brasileiro, o voyeur do cotidiano, o cronista que escrevia “A Vida Como Ela é” literalmente, o romancista sem pudor que olhava o amor pelo buraco da fechadura. Era fluminense doente, apaixonado por futebol, e um dos maiores dramaturgos de todos os tempos.

Nelson Rodrigues um pernambucano dualista, que levou uma vida dupla. Era do seio da família tradicional brasileira e assim formou a sua própria família com Elza Rodrigues, porém realizava sua catarse através da sua grandiosa imaginação eternizada em seus textos. Digamos que sim, ele traiu sua esposa, mas quem nunca traiu que atire a primeira pedra, não é mesmo. Como ele mesmo dizia: “O amor bem-sucedido não interessa a ninguém”.

Nelson começou de fato a trabalhar em um jornal ainda na adolescência quando sua família se mudou de Recife para o Rio de Janeiro. A primeira tragédia de sua vida estava prestes a acontecer dentro da redação do jornal “Crítica”, empresa de propriedade da família Rodrigues. Na tarde do dia 26 de dezembro de 1929,a escritora Sylvia Serafim Thibau entrou no jornal a procura de Mário Rodrigues, pai de Nelson, ele não estava e quem a recebeu foi Roberto Rodrigues, um dos irmãos de Nelson, e ilustrador do jornal.

Sylvia Thibau o matou com um tiro na barriga, a escritora havia sido personagem de reportagens difamatórias, algumas publicadas na primeira página, sobre seu recente desquite, um escândalo para a época. Sylvia Thibau foi presa em flagrante, mas tarde foi julgada e absolvida. Três meses depois inconformado com a morte do filho, Mário Rodrigues, morre vítima de uma trombose cerebral. Estava instaurada a tragédia na família Rodrigues que acompanhou Nelson até seus últimos dias na Terra.

O assassinato do irmão influenciou dramaticamente a temática dos textos Nelson Rodrigues. “Meu teatro não seria como é, e eu não seria como sou, se não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão a morte de Roberto”. Uma das contribuições foi com a peça, se não me engano, a primeira dele no teatro: Vestido de Noiva, muito premiada.

Mas nem tudo foram flores no palco para Nelson no teatro, suas histórias sofreram graves censuras, como por exemplo, a peça “Álbum de Família” ficou censura por 22 anos. Nelson foi xingado por retratar muita coisa que as autoridades queriam esconder embaixo do tapete. Apesar da sua admiração pelos militares e consequentemente pelo governo militar, como autor ele se distanciava desse olhar quando escrevia.

Paixão, incesto, traição, morte, vida, sexualidade, o lado mais humano e perverso do ser humano foi traduzido por Nelson Rodrigues. O item mais fundamental nas obras do anjo pornográfico, segundo seu filho Nelson Rodrigues Filho, o Barba, ou prancha, como é conhecido, é: “seus personagens -mulheres e homens- têm vida própria”.

O anjo pornográfico subiu ao céu no dia 21 de dezembro de 1980, ano em que seu time de coração, o Fluminense, foi campeão do Campeonato Carioca. Em breve mais textos sobre Nelson.

Vinte frases de Nelson Rodrigues para você, leitor, se deliciar. Aproveite!

Amar é dar razão a quem não tem.

Amar é ser fiel a quem nos trai.

Antigamente, o silêncio era dos imbecis; hoje, são os melhores que emudecem. O grito, a ênfase, o gesto, o punho cerrado, estão com os idiotas de ambos os sexos.

As grandes convivências estão a um milímetro do tédio.

Com sorte você atravessa o mundo, sem sorte você não atravessa a rua.

Começava a ter medo dos outros. Aprendia que a nossa solidão nasce da convivência humana.

Desconfie da esposa amável, da esposa cordial, gentil. A virtude é triste, azeda e neurastênica.

Nada nos humilha mais do que a coragem alheia.

Não acredito em honestidade sem acidez, sem dieta e sem úlcera.

Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade.

Deus está nas coincidências.

Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.

É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.

É preciso trair para não ser traído.

Em muitos casos, a raiva contra o subdesenvolvimento é profissional. Uns morrem de fome, outros vivem dela, com generosa abundância.

Entre o psicanalista e o doente, o mais perigoso é o psicanalista.

Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.

Eu me nego a acreditar que um político, mesmo o mais doce político, tenha senso moral.

Existem situações em que até os idiotas perdem a modéstia.

Falta ao virtuoso a feérica, a irisada, a multicolorida variedade do vigarista.

Fran Bueno