Dezesseis anos depois, René ainda tinha razão

 

Há 16 anos, muita gente tratou como exagero uma crítica feita por René Simões. Outros preferiram ridicularizar suas palavras. O tempo, porém, costuma ser impiedoso com quem ignora os sinais.

O que vimos ao apito final da eliminação do Brasil foi a confirmação de um processo que se arrasta há anos: a transformação do jogador em celebridade, da Seleção em palco e da derrota em oportunidade para construir narrativa pessoal.

Enquanto milhões de brasileiros assistiam, frustrados, a mais uma eliminação dolorosa, uma das piores campanhas da Seleção em décadas chegava ao fim. Era um momento que pedia silêncio, reflexão e respeito pela camisa. Mas, em vez disso, o protagonista preferiu os holofotes.

A cena dele buscando o protagonismo foi durante o jogo, nos segundos finais. Quando foi bater um pênalti que nos deu o gol de misericórdia, quando ele tirou uma onda com o goleiro da Noruega que fechou o gol durante o jogo, depois do apito final, vieram as lágrimas falsas de quem puxou de novo o protagonismo dizendo: “aqui comecei, aqui eu encerro!” Todos sabiam que era o último jogo, mas ele quis os holofotes. Como sempre.

O problema nunca foi a derrota. O futebol é feito delas. O problema é quando perder deixa de causar incômodo. Quando a imagem vale mais que o resultado. Quando parecer maior do que o time se torna mais importante do que defender o escudo que se veste.

René Simões alertava para a criação de um personagem maior que o próprio futebol. Um ídolo alimentado por marketing, redes sociais, patrocinadores e por uma legião de admiradores que passou a tratar qualquer crítica como ofensa pessoal. O tempo mostrou que o alerta fazia sentido.

Criou-se uma cultura em que o indivíduo vale mais que o coletivo. Em que o craque está acima da instituição. Em que a marca pessoal supera a responsabilidade de representar um país inteiro.

No fim, a Seleção ficou com mais uma eliminação precoce, uma classificação que entra para as páginas mais tristes da sua história recente e uma imagem que talvez diga mais do que qualquer estatística: a de quem parecia mais preocupado em encerrar a Copa “por cima” do que em sentir o peso do fracasso.

A camisa da Seleção Brasileira já foi sinônimo de excelência. Hoje, muitas vezes, parece apenas mais um cenário para a construção de personagens.

Talvez René não estivesse falando apenas de futebol. Talvez estivesse falando do risco de transformar um talento extraordinário em um ídolo incapaz de compreender que nenhum nome é maior do que a história que representa.

E, dezesseis anos depois, a cena do apito final parece ter dado razão ao seu alerta.

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